Fabiano Santos

Manuscritos de Ideias

Fabiano Santos
Nascido em Itapeva/SP, Fabiano Santos é formado em Letras, com habilitação em Língua Portuguesa e Inglesa, Pedagogia e especialista em Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa e Estrangeira. Atua como professor efetivo nas redes Municipal e Estadual. Autor do livro de poesias, “Amoresias”, adora escrever sobre temas atuais da sociedade.

Nessa semana a coluna “Manuscrito de Ideias” comemora o primeiro aniversário; não podia deixar de celebrar esse momento tão especial. Para isso, republicarei o meu primeiro texto: Retrospectiva...

Dezembro chegou e com ele as velhas e incansáveis retrospectivas de assuntos que povoaram as páginas dos jornais, as telas dos televisores, a voz rouca do radialista e nossa fragilidade de memorizar assuntos que precisam ser relembrados na passagem de ano. Política, esporte, celebridades, crimes e tragédias, são essas lembranças que voltam à mente após trezentos e sessenta e cinco dias corridos, atarefados e intermináveis.

A crise política do país, as denúncias e escândalos, a morte daquela atriz famosa, a demissão dos cargos comissionados, a frustrada descoberta da cura de uma doença, o aumento da alíquota do imposto de renda, o assassinato da melhor amiga do vizinho; isso que queremos refrescar em nossas vidas? É tudo isso que levaremos para o próximo ano? E por que não os detalhes?

Sim, os detalhes. Aquela roseira na praça que abriu em pleno mês de setembro, a vista clara que a janela dos fundos beneficiou; o arco-íris após aquela tarde chuvosa no mês de agosto, o beijo do casal recém-casado no terceiro sábado no mês de maio, a euforia das crianças nas férias de julho, a barbearia lotada quando foi inaugurada na esquina de casa, a homilia do padre contra as mazelas da sociedade. Por que não uma retrospectiva disso?

A maioria das pessoas prefere um lado sombrio dos acontecimentos, e são necessários, porém não podemos transformá-los e arrastá-los por tempo, esquecendo todos os momentos bons e construtivos que a vida nos oferece. Está na essência do ser humano se autoflagelar em desgraças e ignorar as graças recebidas.

A sensação que temos é que o tempo está passando tão rápido que buscamos desesperados por algo que o marque, e nem sempre de forma agradável, pelo contrário, é muito mais marcante uma facada do que um abraço, uma morte do que um nascimento. Os ponteiros do relógio tentam nos pegar, travamos uma batalha mortífera ao levantarmos e sairmos de casa para mais um dia de trabalho.

Felizes são as crianças, que quando recebem a proposta de redação da professora em escrever os fatos ocorridos nas férias, relatam as brincadeiras e aventuras, sentem-se autores de histórias fantasiosas, cheias de fadas e super-heróis, onde todo final é sempre feliz. Ao crescerem, as linhas perdem a imaginação e criam somente frases sanguinárias e obscuras. Ninguém tem culpa, o mundo vive em constante caos, esperamos por uma bomba em nossas cabeças ou uma bala perdida no vidro da sala.

É por isso que os detalhes devem ser lembrados, para aliviar a nossa tensão e nos remeter à simplicidade, ao encantamento das maravilhas perceptíveis aos mais sensíveis. Não seria uma regra geral, mas sim para aqueles que quiserem observar o mundo com outros olhos. Poderia agora pedir uma retrospectiva desse texto, e no final, a maioria lembraria apenas do assassinato da melhor amiga do vizinho.

 

Capa da última edição

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