Fiscalizar é dever constitucional. Usar esse dever como instrumento político, no entanto, beira a irresponsabilidade institucional.
A Câmara Municipal de Itapeva iniciou o ano legislativo aprovando, já na primeira sessão ordinária, a abertura de uma comissão processante contra a prefeita Adriana Duch, a partir de denúncia apresentada por uma cidadã. A decisão, tomada pela maioria dos vereadores, não passou despercebida pela população e rapidamente se transformou em alvo de críticas nas redes sociais.
A decisão também gerou diferentes interpretações entre os munícipes. Parte das manifestações nas redes sociais aponta questionamentos sobre o momento da abertura da comissão processante, especialmente pelo fato de que alguns dos vereadores que aprovaram a medida já integravam o Legislativo em gestões anteriores, período em que iniciativas semelhantes não foram adotadas.
As manifestações também apontam para um incômodo adicional: Adriana Duch é a primeira mulher eleita prefeita na história de Itapeva. Para muitos cidadãos, o rigor repentino contrasta com a tolerância do passado e reforça a percepção de um ambiente político ainda resistente à liderança feminina. Não são acusações isoladas, mas um sentimento coletivo de que há dois pesos e duas medidas na condução do processo político local.
Além disso, cresce a crítica à atuação da Câmara como um todo. Internautas afirmam que há disposição de sobra para apontar supostas irregularidades, mas escassez de propostas, projetos e soluções concretas para os problemas reais da cidade. A fiscalização, quando dissociada do compromisso com o desenvolvimento do município, perde legitimidade e passa a soar como obstáculo — não como ferramenta de aprimoramento da gestão pública.
Em diversas publicações, moradores também apontam uma antecipação explícita do debate eleitoral de 2028. A leitura predominante é de que grupos políticos tentam enfraquecer a atual gestão desde já, mesmo que isso implique travar projetos, atrasar investimentos e manter a cidade refém de disputas internas. Quando o embate político se sobrepõe ao interesse público, quem paga a conta é a população.
A comissão processante será composta pelos vereadores Júlio Ataíde (PL), como presidente, Marinho Nishiyama (Novo), como relator, e Val Santos (PP), como membro, definidos por sorteio conforme o regimento interno. O grupo terá até 90 dias para analisar a denúncia, reunir informações e garantir o direito de defesa da prefeita. Ao final, poderá recomendar o arquivamento do caso ou a abertura de uma sessão de julgamento que pode culminar na cassação do mandato.
A denúncia cita supostas infrações ao Decreto-Lei nº 201/1967, incluindo alegações de despesas sem autorização legal, descumprimento orçamentário, omissão administrativa e afronta a princípios constitucionais. Caberá agora à comissão demonstrar, com fatos concretos e isenção, que o processo não é apenas mais um episódio de disputa política travestida de zelo institucional.
Em um momento em que a cidade exige soluções, diálogo e responsabilidade, a Câmara Municipal precisa decidir se quer ser agente de estabilidade e progresso ou protagonista de mais um capítulo de desgaste político — com consequências diretas para Itapeva.
Em nota, a chefe do Poder Executivo respondeu: “Todos os pontos levantados serão devidamente esclarecidos e comprovados com documentos e ações administrativas, com legalidade, transparência e responsabilidade, demonstrando que não houve prejuízo aos cofres públicos, sendo que interesses pessoais não prevalecerão, e sim o atendimento a toda a comunidade. A Prefeitura reforça que toda apuração é legítima e necessária quando se trata da administração pública, concordando com a devida análise dos fatos. Ao mesmo tempo, esclarece que este movimento ocorre em um contexto político que busca desestabilizar e enfraquecer a atual gestão. Tal movimento ocorre justamente porque a prefeita não concorda, não compactua e não permitirá a continuidade de práticas inadequadas e antigos maus hábitos que existiam dentro do sistema municipal. A administração segue determinada a governar com seriedade, moralidade e respeito ao dinheiro público, sempre priorizando o interesse coletivo e o bem da população”, declarou.








