Editorial – PODER a todo custo

A ganância pelo poder não é fenômeno novo. Mas há momentos em que ela se torna mais visível, especialmente quando o cenário envolve cargos públicos, decisões coletivas e a vitrine permanente da vida política.

A pergunta que ecoa é simples e, ao mesmo tempo, inquietante: a que preço se está disposto a chegar lá? Em que momento princípios, valores e caráter deixam de ser pilares para se tornarem obstáculos? Quando a ambição ultrapassa a vocação para servir, o poder deixa de ser instrumento e passa a ser objetivo final e perigoso.

No ambiente público, isso se revela de várias formas. Amizades que ontem eram sólidas hoje parecem descartáveis. Alianças se desfazem com a mesma rapidez com que são firmadas. Convicções mudam conforme a conveniência. “Nunca nem vi” passa a ser resposta padrão quando a permanência ao lado de alguém já não soma politicamente.

Subir um degrau, custe o que custar, tornou-se prática comum. E, nesse processo, diminuir o outro, espalhar dúvidas, criar narrativas e até denegrir reputações vira estratégia. Não importa o impacto coletivo, não importa a consequência institucional, importa chegar primeiro, aparecer mais, ocupar o espaço antes que outro o faça.

O problema é que o poder público não é palco individual. Ele é, ou deveria ser, instrumento de transformação social. Quando a disputa pessoal se sobrepõe ao interesse coletivo, a sociedade inteira paga o preço. A confiança nas instituições se fragiliza. O debate perde qualidade. A política, no seu sentido mais nobre, se esvazia.

E é preciso dizer: isso não acontece apenas nas esferas federal ou estadual. O município, onde as relações são mais próximas e as consequências mais imediatas, também sente os efeitos dessa ânsia pelo poder. Talvez até de forma mais evidente, porque ali todos se conhecem. Ali, as decisões têm rosto, endereço e impacto direto no cotidiano das pessoas.

Mas essa reflexão vai além da política. A lógica de passar por cima do outro para avançar não está restrita aos corredores políticos. Ela se manifesta em ambientes profissionais, sociais e até pessoais. A cultura da competição desenfreada, da vitória a qualquer custo, vai corroendo valores silenciosamente.

No fim, resta uma reflexão incômoda: o que se ganha quando se perde a essência? Cargos passam. Mandatos terminam. Funções são transitórias. A reputação, essa sim, costuma permanecer.

Talvez o verdadeiro poder esteja justamente na capacidade de manter princípios intactos mesmo quando o cenário convida ao contrário. Porque autoridade sem caráter é apenas aparência e aparência, cedo ou tarde, desmorona.

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