“Momento crítico”: Santa Casa presta contas na Câmara, com déficit milionário e apelo por integração regional

A Santa Casa de Misericórdia de Itapeva prestou contas na Câmara nesta quinta-feira (6) e projetou um cenário de grande dificuldade financeira. Segundo os números apresentados, a entidade deve fechar o ano com um déficit de R$ 5,48 milhões, o que preocupa até para o pagamento da folha. Assim, os representantes da instituição cobraram uma maior integração regional para garantir sua sustentabilidade.

Na apresentação, a situação da Santa Casa foi tratada como um “momento crítico”. No primeiro semestre deste ano, o hospital teve receitas de R$ 58,7 milhões e despesas de R$ 60,2 milhões, o que representa um resultado negativo de R$ 1,5 milhão. Isso, porém, é ainda mais alarmante do que o número indica, como explicou o diretor financeiro Kiko Stuart.

“Devíamos ter feito o provisionamento do 13º, que temos que pagar 50% em novembro e mais 50% em dezembro. Temos zero, já devíamos ter R$ 1,5 milhão. Nós podemos considerar que o déficit negativo já é de R$ 3 milhões”, explicou Stuart.

Segundo a Santa Casa, a raiz do déficit está nos atendimentos via SUS. No primeiro semestre, o balanço “não SUS” teve superávit de R$ 4,5 milhões, mas o excedente foi usado para “tapar o buraco” das despesas com o SUS, que fecharam o semestre com déficit de R$ 6 milhões.

“A Santa Casa não tem fim lucrativo. O lucro que deveria ter era para investir na melhoria do atendimento, compra de equipamentos, manutenção predial, valorização dos profissionais. Só que nós temos o SUS”, afirmou Stuart.

De onde vem esse déficit?
Ao longo da apresentação, a Santa Casa apresentou fatores que vem aumentando despesas, como o envelhecimento da população, a alta no preço de medicamentos, a incorporação de novas tecnologias, o aumento de custos operacionais e as exigências regulatórias de qualidade. Mas os recursos limitados despontaram como principal preocupação, com valores defasados e tetos de repasse como entraves à sustentabilidade econômica da entidade.

No contrato de subvenção assinado entre a Prefeitura de Itapeva e a Santa Casa, o valor máximo a ser repassado mensalmente de acordo com os serviços executados é de R$ 1,81 milhões. A instituição, porém, relata executar, em média, R$ 1,92 milhão por mês, o que gera um prejuízo mensal de quase R$ 110 mil. Com os demais municípios da região, a situação é ainda pior: sem recursos, mas com uma média de R$ 351 mil em serviços executados.

Em uma projeção anual, essa diferença entre os serviços executados e valores repassados pelos municípios chegaria a R$ 5,5 milhões – quase igual ao déficit total projetado pela Santa Casa para o ano de 2026. Assim, a entidade reforçou a importância da participação da região para garantir a saúde financeira da Santa Casa.

“Não estamos falando de uma entidade que atende à população de Itapeva. Nós atendemos a população de 15 municípios, mais de 300 mil habitantes. E quando falamos em oncologia e neurocirurgia, aumenta mais 13 municípios, passa de 700 mil habitantes. É uma complexidade muito maior”, explicou Stuart, que continuou.

“Itapeva é gestor pleno, comando único. Ela não é responsável só por Itapeva, mas por todos os 15 municípios. Ela pode discutir para que eles também façam aportes, mas a Santa Casa não pode chegar no município e fazer essa cobrança. A gente tem que ter essa união da região, uma coisa que a gente sente que não existe, porque existe um déficit no custeio”.

O futuro da Santa Casa
Na visão da superintendente Luciane Pacheco, a ampliação de serviços e linhas de negócio pode ajudar na saúde financeira da Santa Casa. Uma das novidades recentes foi o início das operações do laboratório de análises clínicas, inaugurado no mês passado, com capacidade para 250 mil exames por ano.

A priori, a estrutura está sendo utilizada apenas para os exames internos, o que já representa mais agilidade no processo clínico e economia de recursos. Mas a ideia é de abertura para atendimento externo, como explicou Luciane.

“Já na próxima semana, nós vamos abrir para um pequeno público externo. Ainda não vamos abrir totalmente, porque estamos ampliando nossa capacidade. Hoje, para atender toda a população e até expandir isso para um contrato com o Município, nós precisaríamos ter um local maior para essa coleta. Capacidade de processamento e exame nós temos, só não temos a de receber todo o público”.

Ela também destacou projetos como o Adote um Quarto (para reformas estruturais patrocinadas pela iniciativa privada) e a realização de eventos para arrecadação de fundos, além da ampliação do clube de benefícios Santa Casa + Saúde, que recebeu uma versão voltada às gestantes: o Santa Casa + Materna. “São alternativas de receitas. A gente vem buscando outros pacotes, devemos lançar para saúde da mulher, saúde do homem, com valores mais acessíveis à população, que busca uma alternativa ao SUS”.

Radioterapia
Outro tema tratado por Luciane foi o início das atividades do setor de Radioterapia da Santa Casa. A estrutura física e os equipamentos foram entregues ainda em 2025, mas a operação ainda depende de autorização do Ministério da Saúde para o início dos repasses, o que só deve acontecer após as eleições.

“No último final de semana, recebemos um representante do Ministério. Toda a parte documental e técnica está ok, nós aguardamos a habilitação final do Ministério da Saúde, mas ele nos informou que isso só ocorrerá a partir de 1º de novembro. Por conta do período eleitoral, não pode haver nenhum aumento nas despesas”.

Com isso, ela pediu aos vereadores que cobrem junto às lideranças em Brasília para que, passado o período eleitoral, essa liberação possa sair o mais rápido possível. Hoje, sem atender a população, mas com gastos necessários de funcionários, eletricidade e manutenção, o setor representa um prejuízo de quase R$ 75 mil por mês.

Além da questão financeira, Luciane também destacou o prejuízo humano. Segundo ela, na última estimativa da entidade, já havia cerca de 150 pacientes aguardando na fila para o início dos atendimentos.

 


(Via Câmara de Itapeva)

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